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SETEMBRO VERDE | Doação de órgãos e doença renal: o que você precisa saber

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15 de setembro de 2026

12 minuto(s) de leitura

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Revisado por Dra Ana Teresa Pereira Vieira, CRM-PB 11184 — Nefrologista | Atualizado em setembro de 2026

O 27 de setembro é o Dia Nacional da Doação de Órgãos, e para quem vive com doença renal crônica (DRC), essa data tem um significado especial e muito concreto. O rim é o órgão mais demandado na fila de transplantes do Brasil: atualmente, um total de 44.759 pessoas aguardam por um rim na fila do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), o maior número entre todos os órgãos.

Ao mesmo tempo, o Brasil bateu em 2024 seu recorde histórico de transplantes, com mais de 30 mil procedimentos realizados pelo SUS, crescimento de 18% em relação a 2022. O número é expressivo, mas ainda insuficiente: a fila não diminui porque a demanda cresce mais rápido do que a oferta de órgãos.

Para pacientes com DRC em diálise, entender como funciona o sistema de transplante renal, o que a doação de órgãos representa na prática e como se preparar para entrar na lista de espera são informações que podem mudar o curso do tratamento, e da vida.

Neste artigo:

O transplante renal como tratamento da doença renal crônica 

O transplante renal é considerado o tratamento de escolha para pacientes com doença renal crônica em estágio avançado, não um último recurso, mas a modalidade que oferece melhor sobrevida e melhor qualidade de vida em comparação com a diálise a longo prazo.

Pacientes transplantados vivem mais do que pacientes que permanecem em diálise. A sobrevida do paciente em 1 ano após o transplante supera 90% em centros com bom acompanhamento. A sobrevida do enxerto em 5 anos é de 70% a 80% para rim de doador falecido e de 80% a 90% para rim de doador vivo. Além disso, em praticamente todos os estudos comparativos, pacientes transplantados relatam melhor qualidade de vida do que pacientes em diálise, nos domínios físico, social e emocional.

Doação de órgãos e transplante renal: como funciona no Brasil 

O Brasil possui o maior programa público de transplante de órgãos do mundo, gerido pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT) do Ministério da Saúde. Mais de 85% de todos os transplantes realizados no país são feitos pelo SUS, de forma gratuita, em uma fila única nacional válida tanto para pacientes do SUS quanto da rede privada.

A doação de órgãos pode acontecer de duas formas:

  • Doação por pessoa falecida (morte encefálica): Ocorre quando uma pessoa morre em morte encefálica, parada completa e irreversível de todas as funções cerebrais, enquanto outros órgãos continuam funcionando com suporte hospitalar. Após a confirmação do diagnóstico, a equipe hospitalar aborda a família para autorização da doação. No Brasil, cerca de 40% das famílias recusam a doação, a principal barreira para o aumento do número de transplantes. Em 2024, 55% das famílias entrevistadas autorizaram a doação, um avanço gradual mas ainda aquém do necessário.
  • Doação por pessoa viva: Uma pessoa viva e saudável pode doar um rim a um receptor compatível. Estudos mostram que doadores vivos têm expectativa de vida semelhante à média da população e, com acompanhamento médico anual e hábitos saudáveis, não têm a qualidade de vida comprometida pela doação.

Doador falecido e doador vivo: quais as diferenças para o receptor 

Para o paciente em lista de espera, a origem do rim faz diferença nos resultados do transplante:                         

CaracterísticaDoador falecidoDoador vivo
Tempo de esperaPode levar anosPlanejável com antecedência
Sobrevida do enxerto em 5 anos70% a 80%80% a 90%
Possibilidade de transplante preemptivoMenos frequentePossível e recomendada
Qualidade do órgãoVariávelGeralmente de rim saudável
Necessidade de fila nacionalSimNão — avaliação direta

O transplante com doador vivo é a modalidade com os melhores resultados em toda a medicina de transplante, não apenas renal. O rim vem de uma pessoa saudável, com função renal preservada, e o procedimento pode ser planejado e agendado, sem depender de um órgão disponível na fila.

Quem pode ser doador vivo de rim 

A legislação brasileira (Lei nº 9.434/1997 e Decreto nº 9.175/2017) define quem pode ser doador vivo. São elegíveis:

  • Parentes consanguíneos até o 4º grau: pais, filhos, irmãos, avós, tios, sobrinhos e primos de primeiro grau;
  • Cônjuges e companheiros;
  • Pessoas não aparentadas (amigos ou conhecidos) mediante autorização judicial que confirme ausência de qualquer relação comercial.

Além dos critérios legais, o doador precisa ser medicamente apto, o que exige avaliação criteriosa que inclui:

  • Idade entre 18 e 70 anos (com alguma flexibilidade conforme o caso);
  • Ausência de doenças que comprometam a função renal a longo prazo: diabetes, hipertensão não controlada, doença renal preexistente, nefrolitíase recorrente;
  • Função renal preservada nos dois rins;
  • Ausência de doenças infecciosas transmissíveis pelo enxerto;
  • Compatibilidade sanguínea ABO entre doador e receptor (exigência obrigatória no Brasil).

A compatibilidade HLA (antígenos de histocompatibilidade) não precisa ser idêntica, o que aumenta o universo de potenciais doadores.

Como funciona a fila de espera para transplante renal 

A fila única nacional de transplante renal é gerida pelo Ministério da Saúde e organizada por critérios técnicos e de compatibilidade, não por ordem de chegada como único fator. Os principais critérios são:

  • Compatibilidade de tipagem sanguínea (ABO);
  • Compatibilidade HLA entre doador e receptor;
  • Prova cruzada: teste que verifica se o receptor tem anticorpos contra o doador específico;
  • Tempo de espera em lista: utilizado como critério de desempate quando os demais fatores são equivalentes;
  • Critérios de gravidade: pacientes em situação clínica crítica recebem prioridade.

Transplante preemptivo: o que é e por que importa 

O transplante preemptivo é o transplante realizado antes do início da diálise e é considerado o cenário ideal do ponto de vista clínico. Pacientes que recebem o rim ainda sem ter iniciado a diálise apresentam melhores resultados a longo prazo, menor risco de complicações e maior sobrevida do enxerto.

O transplante preemptivo só é possível quando há um doador vivo identificado com antecedência, já que a fila de doadores falecidos raramente permite esse planejamento. Por isso, conversar sobre a possibilidade de doador vivo desde o diagnóstico de DRC em estágio avançado (G4 ou G5) é uma recomendação que os especialistas fazem com ênfase: a conversa sobre doador vivo costuma chegar tarde, ou não chegar, e muitas famílias só descobrem essa possibilidade depois que o paciente já está em diálise há anos.

Como se candidatar ao transplante renal 

O processo de candidatura ao transplante renal começa com o encaminhamento pelo nefrologista para avaliação em um centro transplantador. Se o paciente for considerado apto, é incluído na lista de espera do SNT.

A avaliação pré-transplante inclui:

  • Exames clínicos e laboratoriais completos: função renal, hepática, cardíaca, sorologia para doenças infecciosas;
  • Tipagem sanguínea e HLA: essenciais para a compatibilidade com futuros doadores;
  • Avaliação cardiovascular: por ser uma cirurgia de grande porte, é necessário confirmar que o paciente tem condições de suportá-la;
  • Avaliação psicossocial: verifica se o paciente tem condições de aderir ao tratamento imunossupressor pós-transplante.

Um ponto importante: o paciente em diálise deve ser encaminhado para avaliação em centro transplantador o quanto antes, independentemente de já ter um doador vivo em vista. A inscrição na lista de espera pode levar tempo, e o tempo em lista conta para o critério de prioridade quando os demais fatores são equivalentes.

O que muda na vida após o transplante renal 

O transplante renal não é sinônimo de cura, mas transforma profundamente a rotina e a qualidade de vida do paciente:

  • Eliminação ou redução significativa da diálise: que na maioria dos casos deixa de ser necessária após o transplante bem-sucedido;
  • Menos restrições alimentares: sem as rígidas limitações de sódio, potássio e fósforo da dieta dialítica;
  • Mais liberdade na rotina: sem os deslocamentos três vezes por semana à clínica de hemodiálise;
  • Melhora na disposição e na capacidade física: com a restauração da função renal, anemia e cansaço tendem a melhorar;
  • Medicação imunossupressora contínua: o paciente precisa tomar medicamentos que evitam a rejeição do rim pelo resto da vida enquanto o enxerto estiver funcionando. O abandono da medicação pode levar à perda do rim transplantado.

O rim transplantado não dura indefinidamente: em algum momento, que pode variar de anos a décadas, o enxerto pode perder função. Quando isso ocorre, o paciente pode retornar à diálise e ser recolocado na lista de espera para um novo transplante.

Setembro Verde: como a conscientização sobre doação salva vidas 

O Setembro Verde é a campanha brasileira de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, que ganha destaque especial no dia 27 de setembroDia Nacional da Doação de Órgãos. A campanha busca mobilizar a população para dois objetivos principais: aumentar o número de doadores e reduzir a taxa de recusa familiar, que ainda representa um dos maiores obstáculos ao sistema.

Expressar em vida o desejo de ser doador é um gesto simples e concreto. No Brasil, a doação depende da autorização da família no momento da morte, portanto, comunicar aos familiares próximos o desejo de ser doador é o passo mais importante que qualquer pessoa pode dar. Também é possível registrar formalmente essa vontade na plataforma AEDO (Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, Tecidos e Partes do Corpo Humano), disponível em aedo.org.br.

Para pacientes com doença renal e seus familiares, o Setembro Verde tem também outro significado: é um momento de lembrar que cada doador pode salvar ou transformar a vida de até oito pessoas, e que, do outro lado da fila, existe um paciente em diálise esperando por um rim.

Dúvidas frequentes sobre doação de órgãos e doença renal 

Quem está em diálise pode entrar na lista de transplante?

Sim. Pacientes em hemodiálise ou diálise peritoneal podem e devem ser avaliados para transplante renal, desde que não haja contraindicações clínicas específicas. O encaminhamento para avaliação em centro transplantador deve ser feito pelo nefrologista.

Posso receber um rim de alguém que não é da minha família?

Sim. Amigos ou conhecidos podem ser doadores vivos, mas a doação de não aparentados exige autorização judicial para confirmar que não há relação comercial envolvida. O processo é legal e regulamentado no Brasil.

Ter hepatite C ou outras doenças impede o transplante?

Não necessariamente. Cada caso é avaliado individualmente. Com os avanços no tratamento da hepatite C pelos antivirais de ação direta, é possível curar a infecção antes do transplante, o que melhora os desfechos. A equipe de nefrologia e hepatologia avaliam em conjunto o melhor momento para o procedimento.

Quanto tempo dura a espera por um rim na fila?

O tempo de espera varia conforme o tipo sanguíneo, a compatibilidade HLA e a disponibilidade de órgãos na região. Não existe uma estimativa única, pode ser de meses a vários anos. Por isso, o cadastro precoce na lista é essencial.

O transplante renal é definitivo?

O transplante não é uma cura definitiva, mas é o tratamento que oferece melhor qualidade de vida e maior sobrevida. O rim transplantado pode funcionar por muitos anos, mas eventualmente pode perder função, e o paciente pode retornar à diálise ou ser avaliado para um novo transplante.

Como registro meu desejo de ser doador de órgãos?

Acesse aedo.org.br para registrar eletronicamente sua vontade. Mas o passo mais importante é conversar com sua família, porque no Brasil a doação depende da autorização dos familiares no momento da morte, independentemente de qualquer registro prévio.

A doação começa com uma conversa

A fila de transplante renal no Brasil não diminui porque a demanda cresce mais rápido do que a oferta de órgãos. Cada família que autoriza a doação, cada pessoa que registra seu desejo e cada potencial doador vivo que se apresenta faz parte da solução.

Se você tem doença renal crônica e ainda não conversou com seu nefrologista sobre o transplante, esse é o momento. Pergunte sobre a possibilidade de doador vivo, sobre como se inscrever na lista e sobre o que precisa ser avaliado. E se você é familiar ou amigo de alguém em diálise: converse. Às vezes, uma conversa pode ser o primeiro passo para mudar uma vida.

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