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Revisado por Dr. Marcelo Lopes, CRM (Bahia): 16939— Nefrologista | Atualizado em agosto de 2026
A anemia é uma das complicações mais frequentes da doença renal crônica (DRC) e pode surgir já nos estágios iniciais da perda de função renal. De acordo com as diretrizes KDIGO, sua prevalência acompanha a queda da taxa de filtração glomerular (TFG): afeta de 20% a 40% dos pacientes no estágio 3, de 50% a 60% no estágio 4 e mais de 70% no estágio 5, tornando-se praticamente universal entre os pacientes em hemodiálise.
Do ponto de vista laboratorial, fala-se em anemia quando a concentração de hemoglobina está abaixo do necessário para garantir o transporte adequado de oxigênio aos tecidos. É importante ter em mente que a anemia é um achado laboratorial, não um diagnóstico definitivo por si só: mesmo em pacientes com DRC, ela deve sempre ser investigada, pois causas não relacionadas aos rins — como sangramentos ou deficiência de vitamina B12 e ácido fólico — também precisam ser descartadas.
Clinicamente, a anemia associa-se a cansaço, fraqueza, falta de disposição e piora da qualidade de vida. Quando não identificada e tratada adequadamente, contribui ainda para a hipertrofia do ventrículo esquerdo, a progressão da própria doença renal, um maior número de internações e o aumento da mortalidade — por isso, seu rastreamento faz parte da rotina de acompanhamento nefrológico.
Neste artigo:
- O que é anemia
- Qual a relação entre doença renal e anemia
- Principais causas da anemia na doença renal crônica
- Sintomas de anemia na doença renal
- Como é feito o diagnóstico
- Tratamentos disponíveis para anemia na doença renal
- A importância do acompanhamento médico
- Dúvidas frequentes sobre anemia e doença renal
O que é anemia
Define-se anemia como a redução da concentração de hemoglobina abaixo dos valores de referência para idade e sexo — segundo a diretriz KDIGO 2012 para anemia na DRC, hemoglobina inferior a 13 g/dL em homens adultos e a 12 g/dL em mulheres adultas.
A hemoglobina é a proteína dos glóbulos vermelhos responsável por transportar oxigênio para todas as células do organismo. Quando seus níveis caem, os tecidos recebem menos oxigênio, o que pode comprometer o funcionamento de diferentes órgãos e sistemas — incluindo o coração, que passa a trabalhar mais para compensar a menor oferta de oxigênio.
Qual a relação entre doença renal e anemia
Os rins exercem diversas funções essenciais, entre elas a produção de eritropoetina, hormônio sintetizado principalmente por células do interstício renal em resposta à baixa oferta de oxigênio aos tecidos.
A eritropoetina estimula a medula óssea a produzir glóbulos vermelhos. À medida que o tecido renal é substituído por fibrose ao longo da DRC, essas células produtoras de eritropoetina são progressivamente perdidas, e a resposta do organismo à queda da hemoglobina torna-se insuficiente.
Por isso, a anemia da DRC acompanha a evolução da função renal: tende a se tornar mais frequente e mais intensa à medida que a taxa de filtração glomerular diminui.
Principais causas da anemia na doença renal crônica
A anemia na DRC raramente tem causa isolada. Na maioria dos casos, resulta da combinação de múltiplos fatores:
1. Menor produção de eritropoetina (a principal causa):
Rins com função reduzida produzem menos eritropoetina, o que diminui o estímulo à formação de glóbulos vermelhos na medula óssea. É a causa central da anemia na DRC, sobretudo nos estágios mais avançados.
2. Deficiência de ferro:
O ferro é essencial para a síntese de hemoglobina. Está presente em cerca de 50% dos pacientes com DRC e pode ser absoluta (estoques corporais reduzidos) ou funcional (estoques presentes, porém indisponíveis para uso pela medula óssea).
3. Inflamação crônica e papel da hepcidina:
A DRC cursa com estado inflamatório persistente, que eleva os níveis de hepcidina, hormônio hepático que bloqueia a absorção intestinal de ferro e retém o ferro nos estoques, tornando-o indisponível para a produção de hemoglobina mesmo quando os depósitos totais parecem adequados.
4. Perdas sanguíneas relacionadas ao tratamento:
Pacientes em hemodiálise perdem pequenas quantidades de sangue a cada sessão — no circuito extracorpóreo e nas coletas laboratoriais frequentes —, o que agrava o quadro anêmico ao longo do tempo.
5. Outras causas que sempre devem ser investigadas:
Deficiência de vitamina B12 e ácido fólico, hemólise, hiperparatireoidismo grave com fibrose medular e sangramentos gastrointestinais também podem contribuir para a anemia e devem ser afastados, especialmente quando o grau de anemia é desproporcional à perda de função renal.
Sintomas de anemia na doença renal
Os sintomas costumam surgir gradualmente e variam conforme a gravidade da anemia. Em estágios iniciais, costuma ser assintomática e identificada apenas em exames de rotina.
Quando presentes, os sinais mais frequentes incluem:
- cansaço persistente e fraqueza (os sintomas mais comuns);
- falta de energia e redução da capacidade para atividades cotidianas;
- falta de ar aos esforços;
- tontura;
- palidez da pele e das mucosas;
- dificuldade de concentração e prejuízo cognitivo;
- aceleração dos batimentos cardíacos (taquicardia).
Como muitos desses sintomas podem ser confundidos com manifestações da própria doença renal — ou até do envelhecimento —, o acompanhamento médico regular e a realização periódica de exames são fundamentais para a detecção precoce, sobretudo em pacientes com doença cardiovascular associada, nos quais a anemia tende a agravar sintomas como falta de ar e angina.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é laboratorial. A investigação geralmente inclui:
- hemograma completo com contagem de reticulócitos: avalia a quantidade, o tamanho (VCM) e a resposta medular à anemia;
- dosagem de hemoglobina: confirma e quantifica a anemia;
- avaliação dos estoques de ferro: ferritina e saturação de transferrina (TSAT);
- exames de função renal: creatinina, ureia e taxa de filtração glomerular (TFG);
- dosagem de vitamina B12 e folato: quando há suspeita de causa associada, especialmente se o padrão do hemograma não for o típico da anemia da DRC (normocítica e normocrômica).
Além de confirmar a anemia, esses exames ajudam a identificar os fatores que contribuem para o quadro e orientam o tratamento. O rastreamento é recomendado ao menos anualmente nos estágios 3 a 5 sem anemia, e a cada 3 meses em pacientes com anemia já diagnosticada ou em uso de tratamento específico.
Tratamentos disponíveis para anemia na doença renal
O tratamento depende da causa da anemia, da gravidade do quadro e das características clínicas de cada paciente. As principais abordagens incluem:
- Reposição de ferro:
Indicada quando há deficiência de ferro, por via oral ou intravenosa. Em pacientes em hemodiálise, a via intravenosa costuma ser preferida, pois a absorção intestinal está comprometida pela hepcidina elevada. A reposição costuma ser considerada quando a ferritina está ≤500 ng/mL e a TSAT ≤30%, com reavaliação periódica para evitar sobrecarga de ferro. - Agentes estimuladores da eritropoiese (AEEs):
Atuam de forma semelhante à eritropoetina natural, estimulando a produção de glóbulos vermelhos e reduzindo a necessidade de transfusões. Antes de iniciar um AEE, a deficiência de ferro precisa ser corrigida, sob risco de resposta inadequada. O objetivo não é normalizar a hemoglobina: as diretrizes recomendam manter os níveis geralmente entre 10 e 11,5 g/dL, evitando valores acima de 13 g/dL, pois a correção excessiva foi associada a maior risco cardiovascular e de eventos tromboembólicos em estudos clínicos. O ajuste de dose e o monitoramento da hemoglobina — geralmente a cada 2 a 4 semanas durante a fase de titulação — são feitos pela equipe de nefrologia. - Controle da doença renal:
O acompanhamento adequado da DRC e a realização correta do tratamento dialítico, quando indicado, também contribuem para o controle da anemia ao reduzir o estado inflamatório e as perdas sanguíneas. - Transfusão de sangue:
Reservada para situações agudas ou de maior gravidade, quando é preciso corrigir rapidamente a hemoglobina. Além dos riscos usuais, merece atenção especial em candidatos a transplante renal: pode causar sensibilização imunológica (formação de anticorpos anti-HLA), dificultando a compatibilidade com futuros doadores. Por isso, seu uso deve ser bem ponderado nesse grupo de pacientes.
A escolha do tratamento deve ser individualizada e conduzida pela equipe de nefrologia responsável pelo acompanhamento do paciente.
A importância do acompanhamento médico
A anemia pode se desenvolver de forma gradual e silenciosa, sem ser percebida nos estágios iniciais. Por isso, o monitoramento periódico dos níveis de hemoglobina e dos estoques de ferro faz parte do cuidado essencial com pacientes que vivem com doença renal crônica.
A identificação precoce permite iniciar o tratamento no momento adequado, reduzindo sintomas, complicações cardiovasculares e internações, além de contribuir para uma melhor qualidade de vida e preservar as opções terapêuticas futuras, incluindo a elegibilidade para transplante renal.
Dúvidas frequentes sobre anemia e doença renal
Todo paciente com doença renal desenvolve anemia?
Não. Embora seja uma complicação muito frequente, a anemia não ocorre da mesma forma em todos os pacientes. O risco é baixo nos estágios iniciais (inferior a 10% nos estágios 1 e 2) e cresce progressivamente à medida que a função renal declina.
A anemia pode surgir antes da diálise?
Sim. Pode aparecer já nos estágios 3 e 4 da DRC, bem antes da necessidade de terapia dialítica. Nesses estágios costuma ser assintomática, o que reforça a importância do monitoramento laboratorial regular.
Quais são os principais sintomas da anemia na doença renal?
Os sintomas mais comuns incluem cansaço, fraqueza, falta de ar, tontura, palidez e dificuldade de concentração. Em muitos casos, surgem de forma gradual e podem ser confundidos com os da própria doença renal.
A anemia associada à doença renal tem tratamento?
Sim. Existem opções terapêuticas eficazes — reposição de ferro, agentes estimuladores da eritropoiese (AEEs) e, em casos selecionados, transfusão sanguínea —, sempre definidas de forma individualizada pela equipe de nefrologia, de acordo com a causa e as características clínicas de cada paciente.
Um cuidado essencial para a saúde renal
A anemia é uma das complicações mais comuns da doença renal crônica e pode impactar significativamente o bem-estar, a capacidade funcional e a qualidade de vida dos pacientes. Quando não tratada, associa-se a maior risco cardiovascular, mais internações e aumento da mortalidade.
O acompanhamento regular com a equipe de nefrologia, aliado à realização periódica de exames laboratoriais, permite identificar precocemente alterações nos níveis de hemoglobina e definir, em conjunto com o paciente, o tratamento mais adequado para cada caso.

