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Hepatite C e doença renal: o que pacientes em diálise precisam saber

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17 de agosto de 2026

10 minuto(s) de leitura

doença renal crônica Saúde

Revisado por Dr. Marcelo Lopes, CRM (Bahia): 16939— Nefrologista | Atualizado em agosto de 2026

A hepatite C é uma infecção causada pelo vírus da hepatite C (HCV) que afeta principalmente o fígado. No entanto, para quem convive com doença renal crônica (DRC), ela também merece atenção, pois pode agravar a função dos rins e é mais frequente entre pacientes em hemodiálise.

A boa notícia é que hoje a hepatite C tem tratamento altamente eficaz e pode ser curada na maioria dos casos, inclusive em pessoas que fazem diálise. Por isso, o diagnóstico precoce e a prevenção continuam sendo fundamentais.

Neste artigo:

O que é hepatite C e como o vírus afeta o organismo 

A hepatite C é uma infecção viral causada pelo vírus da hepatite C (HCV), transmitido principalmente pelo contato com sangue contaminado. Diferentemente das hepatites A e B, não existe vacina disponível para o HCV.

Quando não tratada, a hepatite C pode evoluir de forma silenciosa por décadas, causando inflamação crônica do fígado que progressivamente leva a:

  • Fibrose hepática: cicatrização do tecido do fígado;
  • Cirrose: estágio avançado de fibrose, com comprometimento grave da função hepática;
  • Carcinoma hepatocelular: câncer de fígado, que incide em cerca de 2% a 3% ao ano em pacientes com cirrose estabelecida.

Além do fígado, a hepatite C também pode afetar outros órgãos do corpo (manifestações extra-hepáticas).

Qual a relação entre hepatite C e doença renal 

A hepatite C e a doença renal crônica se relacionam de duas formas principais, e é importante que o paciente compreenda as duas direções dessa ligação:

  1. O HCV pode causar ou agravar a doença renal
    A infecção crônica pelo vírus da hepatite C pode causar lesões nos rins. Isso acontece porque a resposta do sistema imunológico pode levar ao depósito de imunocomplexos (conjuntos de anticorpos e proteínas) nos glomérulos, estruturas responsáveis por filtrar o sangue. Como consequência, podem surgir doenças como a glomerulonefrite — a mais característica é a glomerulonefrite membranoproliferativa associada à crioglobulinemia, uma forma de vasculite ligada ao HCV, que contribuem para a progressão da doença renal crônica.
  2. Pacientes com DRC em diálise têm maior risco de contrair o HCV
    A exposição frequente ao sangue durante as sessões de hemodiálise cria condições que aumentam o risco de infecção pelo HCV. Por isso, a prevalência do vírus é historicamente mais alta em centros de diálise do que na população geral, e o tempo em tratamento dialítico é um dos principais fatores de risco para a aquisição da infecção.

Por que pacientes em diálise têm maior risco de hepatite C 

Pacientes que realizam terapia renal estão no grupo de maior vulnerabilidade para aquisição da hepatite C. No Brasil, a prevalência do HCV em hemodialisados é três vezes maior do que a relatada para a população brasileira em geral. No entanto, dados mais recentes do Censo Brasileiro de Diálise mostram uma queda acentuada da prevalência de hepatite C nas unidades de diálise nas últimas décadas, atribuída à triagem universal do sangue, à menor necessidade de transfusão (com o uso de eritropoetina) e ao tratamento sistemático dos pacientes infectados.

Esse risco elevado está diretamente relacionado às características do tratamento:

  • exposição repetida ao sangue nas sessões de hemodiálise, três vezes por semana;
  • histórico de transfusões sanguíneas: especialmente em pacientes que iniciaram o tratamento antes da triagem universal do sangue para o HCV, implantada no Brasil nos anos 1990;
  • uso de cateter venoso central como acesso vascular temporário;
  • múltiplas internações hospitalares ao longo do tratamento;
  • tempo prolongado em hemodiálise: pacientes com mais de 10 anos de hemodiálise apresentam risco de aquisição do HCV quase 74 vezes maior do que pacientes com até 5 anos de tratamento.

Sintomas da hepatite C: por que é difícil perceber 

A hepatite C é conhecida como uma infecção silenciosa. Na maioria dos casos, especialmente na fase aguda, não causa sintomas perceptíveis, o que torna o diagnóstico precoce dependente de exames laboratoriais e não da percepção do próprio paciente.

Quando aparecem, os sintomas costumam ser inespecíficos e podem ser facilmente confundidos com manifestações da própria doença renal crônica:

  • fadiga e fraqueza persistentes;
  • perda de apetite;
  • náuseas;
  • desconforto abdominal;
  • icterícia: coloração amarelada da pele e dos olhos (mais rara na fase crônica).

Em pacientes em diálise, esse quadro se torna ainda mais desafiador: muitos sintomas da hepatite C se sobrepõem aos da DRC e da anemia, o que reforça a importância do rastreamento laboratorial regular como parte do acompanhamento rotineiro.

Como é feito o diagnóstico de hepatite C em pacientes em diálise 

O diagnóstico da hepatite C é feito em duas etapas:

  1. Triagem sorológica (anti-HCV)
    O primeiro exame é a detecção do anticorpo anti-HCV no sangue, que indica se o organismo entrou em contato com o vírus em algum momento. Um resultado positivo não significa necessariamente que a infecção está ativa, pode indicar infecção passada já resolvida.
  2. Confirmação por carga viral (HCV-RNA)
    Quando o anti-HCV é positivo, o próximo passo é a pesquisa do HCV-RNA por PCR, que detecta a presença do vírus ativo no organismo e confirma a infecção crônica. Esse exame também é utilizado para monitorar a resposta ao tratamento.

Nas unidades de hemodiálise, o Ministério da Saúde recomenda que todos os pacientes realizem triagem sorológica periódica para hepatite C (geralmente a cada 6 meses) independentemente de apresentarem sintomas.

Tratamento da hepatite C em pacientes com doença renal 

Nos últimos anos, o tratamento da hepatite C mudou completamente. Os antivirais de ação direta (DAAs) substituíram o antigo tratamento com interferon e passaram a oferecer esquemas mais curtos, melhor tolerados e com taxas de cura superiores a 90%.

Os DAAs apresentam taxas de cura superiores a 90%, medidas pela resposta virológica sustentada (RVS), termo que indica que o vírus foi eliminado do organismo de forma duradoura após o tratamento.

O tratamento disponível no SUS para pacientes em diálise

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde indica o esquema com Glecaprevir e Pibrentasvir para pacientes com hepatite C e doença renal, incluindo aqueles em hemodiálise. Esse esquema é pangenotípico, ou seja, eficaz independentemente do genótipo do vírus, e é fornecido gratuitamente pelo SUS.

A duração do tratamento varia conforme a presença ou não de cirrose:

  • 8 semanas para pacientes sem cirrose;
  • 12 semanas para pacientes com cirrose compensada (Child A).

E o transplante renal?

Para pacientes em lista de espera para transplante renal, o tratamento da hepatite C antes do transplante é especialmente importante, pois a infecção ativa pelo HCV pode comprometer os resultados do transplante, a sobrevida do enxerto e aumentar o risco de rejeição. A decisão sobre o momento ideal do tratamento deve ser tomada em conjunto pela equipe de nefrologia e pelo hepatologista.

O que as clínicas de diálise fazem para prevenir a hepatite C 

A prevenção da hepatite C nas unidades de hemodiálise é uma responsabilidade da equipe de saúde, e os pacientes têm o direito de conhecer as medidas que devem estar em vigor em toda clínica. Entre as principais estratégias:

  • triagem sorológica periódica de todos os pacientes para anti-HCV;
  • isolamento de máquinas e pacientes com hepatite C, com reprocessamento separado dos dialisadores — uma vez confirmada a cura (RVS), a manutenção ou não do isolamento é reavaliada pela equipe da clínica, conforme os protocolos vigentes;
  • protocolos rígidos de higienização das mãos pela equipe entre cada procedimento;
  • não compartilhamento de nenhum material entre pacientes, incluindo frascos de heparina;
  • uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados;
  • desinfecção sistemática de superfícies e equipamentos.

O Ministério da Saúde adota uma estratégia chamada microeliminação da hepatite C, que consiste em identificar e tratar rapidamente todos os pacientes com infecção em grupos específicos, como as clínicas de hemodiálise, para interromper a transmissão do vírus.

Dúvidas frequentes sobre hepatite C e doença renal 

Todo paciente em hemodiálise tem hepatite C?
Não. A hepatite C é mais prevalente em pacientes em diálise do que na população geral, mas não afeta todos os pacientes. O rastreamento periódico é o único caminho para saber o estado sorológico de cada pessoa.

A hepatite C tem cura para quem está em diálise?
Sim. Os antivirais de ação direta (DAAs) disponíveis no SUS são eficazes e seguros para pacientes em hemodiálise, com taxas de cura superiores a 90%. O tratamento é feito por via oral, tem duração de 8 a 12 semanas e não exige suspensão das sessões de diálise.

O diagnóstico de hepatite C impede o transplante renal?
Não necessariamente, mas a infecção ativa pelo HCV pode impactar os resultados do transplante. O tratamento e a cura da hepatite C antes do transplante são geralmente recomendados pela equipe médica para melhorar os desfechos do procedimento.

Como sei se a clínica de diálise onde me trato segue os protocolos de prevenção?
Você pode perguntar diretamente à equipe de saúde sobre os procedimentos adotados. Protocolos como triagem periódica, isolamento de máquinas para pacientes com HCV e não compartilhamento de materiais entre pacientes são exigências regulatórias e devem ser seguidos por todas as clínicas de hemodiálise no Brasil.

Posso transmitir hepatite C para minha família?
O HCV é transmitido pelo contato com sangue contaminado, e não por abraço, beijo, tosse ou compartilhamento de utensílios domésticos. O risco de transmissão sexual existe, mas é baixo. O compartilhamento de objetos cortantes ou que possam ter contato com sangue, como lâminas de barbear, alicates de unha e escovas de dente, deve ser evitado.

Hepatite C tem tratamento e a prevenção começa com o diagnóstico

A hepatite C é uma infecção séria, mas hoje pode ser curada na maioria dos casos. Para quem faz hemodiálise, realizar o rastreamento regularmente, iniciar o tratamento no momento certo e seguir as orientações da equipe de saúde são medidas fundamentais para proteger a saúde e reduzir a transmissão do vírus nas unidades de diálise.

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