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Revisado por Dr. Bruno Zawadzki, CRM 5283514-5 – Nefrologista | Atualizado em outubro/2026
Manter a musculatura costuma ficar em segundo plano quando o foco do tratamento renal é a diálise em si. Mas a perda muscular no tratamento de hemodiálise, tecnicamente chamada de sarcopenia, é uma das complicações mais comuns da doença renal crônica (DRC): os números variam conforme o critério usado, mas o retrato brasileiro é claro. Um estudo multicêntrico com quase mil pacientes em hemodiálise no país (estudo SARC-HD, 19 clínicas) encontrou algum grau de sarcopenia em cerca de 1 em cada 4 pessoas: 12% com sarcopenia provável, 9% com sarcopenia confirmada e 5% em forma grave. É também uma das mais silenciosas.
A boa notícia é que a sarcopenia não é uma consequência inevitável do tratamento. Com acompanhamento nutricional adequado, exercício físico orientado e atenção aos primeiros sinais, é possível preservar músculos, força e qualidade de vida ao longo dos anos de diálise.
Neste artigo:
- O que é sarcopenia
- Por que a hemodiálise favorece a perda de massa muscular
- Sinais de alerta da sarcopenia
- Como é feito o diagnóstico
- Uma triagem simples que você pode pedir na clínica
- Alimentação: o desafio da proteína na dieta renal
- Exercício físico: aliado durante e fora das sessões
- Outras estratégias para preservar a musculatura
- Sarcopenia com peso normal: por que a balança não conta toda a história
- Anemia e vitamina D: outros fatores que também pesam
- O que perguntar na sua próxima consulta
- Dúvidas frequentes sobre sarcopenia e hemodiálise
O que é sarcopenia
Sarcopenia é a perda progressiva de massa muscular associada à redução de força e, em estágios mais avançados, à queda de desempenho físico, como dificuldade para caminhar, levantar-se de uma cadeira ou subir escadas. Diferente do simples emagrecimento, a sarcopenia atinge especificamente o tecido muscular, mesmo que o peso corporal permaneça estável. Também não se confunde com “fraqueza normal da idade”: é uma condição que tem diagnóstico, tem causas identificáveis e tem tratamento.
Por que a hemodiálise favorece a perda de massa muscular
Vários fatores, muitas vezes combinados, contribuem para a perda de massa muscular na hemodiálise:
- Perda de aminoácidos durante a sessão: parte dos aminoácidos, que são a base das proteínas musculares, é removida do sangue junto com as toxinas durante a diálise — uma quantidade pequena a cada sessão, que se soma ao longo das semanas;
- Inflamação crônica: a doença renal crônica mantém o organismo em um estado inflamatório persistente, que favorece a degradação muscular;
- Resistência a hormônios anabólicos: hormônios que normalmente estimulam o ganho de massa muscular, como o hormônio do crescimento e a testosterona, perdem parte da sua eficácia na doença renal;
- Alterações hormonais ligadas ao controle da pressão: algumas substâncias que o corpo produz para regular a pressão arterial também estimulam a quebra de proteínas do músculo;
- Acidose metabólica: comum na doença renal, é o excesso de ácido no sangue, que favorece diretamente a degradação de proteínas no músculo e que pode ser corrigido com ajuste da diálise e, às vezes, com bicarbonato;
- Redução da ingestão proteica e calórica: muitas vezes por perda de apetite ou por receio de exceder as restrições da dieta renal;
- Inatividade física: o tempo em sessões de diálise, o cansaço e a rotina de tratamento favorecem o sedentarismo, que acelera a perda muscular;
- Internações e infecções: cada período acamado custa massa muscular, e a recuperação depois dos 60 anos é bem mais lenta do que a perda.
Sinais de alerta da sarcopenia
- Perda de peso não intencional;
- Fraqueza perceptível para levantar de uma cadeira, subir escadas ou carregar objetos ou dificuldade nova para abrir potes, garrafas e girar a chave na fechadura;
- Redução visível da circunferência de braços e panturrilhas, anéis e roupas mais folgados;
- Cansaço mais intenso do que o habitual nas atividades do dia a dia;
- Quedas mais frequentes ou insegurança para andar sem apoio;
- Redução do apetite.
Esses sinais costumam ser atribuídos apenas ao cansaço da diálise ou ao envelhecimento, o que atrasa a identificação do problema. Relatar essas mudanças à equipe de saúde é o primeiro passo para investigação.
Como é feito o diagnóstico
A avaliação da sarcopenia combina, em geral, três elementos: força muscular, quantidade de massa muscular e desempenho físico.
- Força muscular: medida pela dinamometria de preensão manual, um teste simples feito com um aparelho que avalia a força da mão. Na hemodiálise, a medida é feita no braço sem fístula;
- Massa muscular: avaliada por bioimpedância elétrica ou, em alguns serviços, por densitometria (DEXA). Na diálise, a bioimpedância deve ser feita depois da sessão, quando o excesso de líquido já foi retirado, caso contrário, a água pode ser confundida com músculo;
- Desempenho físico: avaliado, por exemplo, pela velocidade da marcha ou por testes funcionais como o de sentar e levantar da cadeira.
Essa avaliação costuma ser feita pela equipe de nefrologia em conjunto com nutricionista e, quando disponível, fisioterapeuta ou educador físico especializado em pacientes renais.
Uma triagem simples que você pode pedir na clínica
Antes dos exames mais elaborados, existem duas ferramentas rápidas e baratas que a equipe pode aplicar em poucos minutos: um questionário de cinco perguntas sobre força, caminhada, subir escadas, levantar-se da cadeira e quedas, usado no mundo todo como triagem de sarcopenia e a medida da circunferência da panturrilha com uma fita métrica. Nenhuma das duas fecha o diagnóstico, mas ambas indicam quem precisa de avaliação completa. Se você faz hemodiálise há mais de um ano e nunca passou por nenhuma delas, vale pedir na próxima consulta.
Alimentação: o desafio da proteína na dieta renal
Um dos maiores paradoxos do cuidado nutricional em diálise é que, ao contrário da fase pré-diálise, em que a proteína costuma ser restrita, pacientes em hemodiálise precisam de mais proteína, não menos, geralmente entre 1,0 e 1,2 g por quilo de peso ao dia, para compensar as perdas que ocorrem durante a sessão. Na prática, uma pessoa de 70 kg precisa de algo entre 70 e 85 g de proteína por dia. O cálculo é feito sobre o peso seco (aquele do fim da sessão) e vale para quem está clinicamente estável, quem define o número é a equipe.
A mensagem mais importante desta seção: reduzir a proteína por medo do fósforo é um erro comum e ele custa músculo. O caminho correto é o oposto: manter a proteína recomendada e controlar o fósforo pela escolha dos alimentos e pelo uso correto dos quelantes, tomados junto com as refeições. Se o seu fósforo está alto, converse com a equipe antes de cortar carne, ovo ou leite por conta própria.
O desafio é que muitas fontes de proteína também são ricas em fósforo e potássio, dois minerais que precisam ser controlados na dieta renal. Por isso, a orientação individualizada de um nutricionista especializado em doença renal é essencial para:
- Escolher boas fontes de proteína: o fósforo dos aditivos presentes em embutidos, refrigerantes e produtos industrializados é absorvido quase por completo pelo corpo, enquanto o fósforo das carnes frescas e dos alimentos naturais é aproveitado apenas em parte;
- Distribuir a ingestão de proteína ao longo do dia, e não apenas em uma refeição;
- Avaliar, quando indicado, o uso de suplementação proteica oral durante as sessões de diálise;
- Ajustar a dieta continuamente, conforme exames e evolução do paciente; e não pular refeições nos dias de diálise, sobretudo depois da sessão.
Exercício físico: aliado durante e fora das sessões
O exercício físico regular é um dos pilares mais eficazes no combate à sarcopenia. O exercício intradialítico, realizado durante a própria sessão de hemodiálise, geralmente em bicicleta ergométrica adaptada à cadeira ou cama de diálise, vem ganhando espaço nas clínicas por aproveitar um tempo que, de outra forma, seria de inatividade. Ele costuma ser feito na primeira metade da sessão, quando o risco de queda de pressão é menor, e sempre com a equipe por perto.
Fora das sessões, exercícios de fortalecimento muscular (musculação ou exercícios com o peso do próprio corpo), caminhadas e atividades aeróbicas leves a moderadas também trazem benefícios, desde que prescritos e acompanhados por um profissional de educação física ou fisioterapeuta com experiência em pacientes renais, respeitando os cuidados com o acesso vascular (fístula ou cateter) e o dia da diálise. Um ponto prático: caminhar é ótimo para o coração, mas não basta para recuperar músculo. Para ganhar massa e força é preciso incluir exercícios de força, ainda que leves e feitos sentado.
Outras estratégias para preservar a musculatura
- Manter a diálise adequada, com boa remoção de toxinas (acompanhada pelo indicador Kt/V, um número que mostra se a quantidade de diálise que você recebe está suficiente);
- Corrigir a acidose metabólica, quando presente, conforme orientação do nefrologista;
- Controlar comorbidades associadas, como diabetes e doenças cardiovasculares;
- Evitar longos períodos de inatividade entre as sessões;
- Cuidar do sono e do humor: depressão e insônia reduzem apetite e disposição para se movimentar, e são frequentes em quem faz diálise;
- Contar com acompanhamento multiprofissional contínuo, incluindo nutricionista, fisioterapeuta e, quando necessário, endocrinologista.
Sarcopenia com peso normal: por que a balança não conta toda a história
É comum associar a perda de massa muscular à imagem de alguém visivelmente magro ou abaixo do peso, mas isso nem sempre é verdade. Existe uma condição chamada obesidade sarcopênica, em que o paciente apresenta simultaneamente excesso de gordura corporal e baixa massa muscular. Nesses casos, o peso na balança e até o índice de massa corporal (IMC) podem parecer normais, ou até elevados, escondendo uma perda muscular real por trás.
Isso é particularmente relevante na doença renal crônica: em pacientes em hemodiálise observa-se o chamado “paradoxo da obesidade”, quem tem IMC mais alto costuma apresentar melhores desfechos do que quem tem IMC baixo. Só que os estudos mostram que essa vantagem se relaciona à massa muscular, e não à gordura: a baixa massa muscular aumenta o risco de complicações mesmo em quem tem peso normal ou elevado. Ou seja, não existe um número na balança que garanta, sozinho, que a musculatura está preservada. É por isso que a avaliação de força e massa muscular, e não apenas do peso, é tão importante.
Anemia e vitamina D: outros fatores que também pesam
Dois problemas muito comuns na doença renal crônica também contribuem para a perda muscular, mesmo que não pareçam diretamente relacionados ao tema: a anemia e a deficiência de vitamina D. A anemia, que pode afetar a grande maioria dos pacientes em estágio avançado da doença, reduz a oxigenação dos tecidos, incluindo os músculos, e está associada a mais fadiga e menor capacidade física.
Já a deficiência de vitamina D, muito frequente em quem faz diálise, atua favorecendo a degradação de proteínas musculares. Por isso, o controle da anemia (muitas vezes com eritropoetina e reposição de ferro) e a correção dos níveis de vitamina D fazem parte do conjunto de estratégias contra a sarcopenia, junto com a alimentação e o exercício físico. Uma ressalva importante: a reposição de vitamina D em quem tem doença renal deve ser sempre orientada pela equipe. Doses altas por conta própria podem elevar o cálcio no sangue e agravar problemas ósseos e vasculares.
O que perguntar na sua próxima consulta
Se você faz hemodiálise, algumas perguntas simples podem ajudar a colocar a prevenção da sarcopenia na pauta da sua próxima consulta:
- Minha força muscular já foi avaliada (por exemplo, com o teste de preensão manual)?
- Meus níveis de hemoglobina e vitamina D estão dentro do esperado?
- Minha dose de diálise (Kt/V) está adequada?
- Vale a pena eu ser encaminhado a um fisioterapeuta ou educador físico especializado em pacientes renais?
- Minha ingestão de proteína está adequada para quem faz hemodiálise?
- Existe exercício durante a sessão aqui na clínica? Eu posso participar?
Levar essas perguntas prontas pode ajudar a equipe a direcionar melhor a sua avaliação, principalmente porque a sarcopenia raramente é o motivo da consulta, precisando ser buscada de forma ativa.
Dúvidas frequentes sobre sarcopenia e hemodiálise
Sarcopenia é a mesma coisa que desnutrição?
Não, embora estejam relacionadas e frequentemente ocorram juntas. A desnutrição envolve deficiência geral de nutrientes, enquanto a sarcopenia é especificamente a perda de massa e força muscular. Você pode ter sarcopenia mesmo sem estar clinicamente desnutrido.
Todo paciente em hemodiálise vai desenvolver sarcopenia?
Não. O risco aumenta com o tempo de tratamento, a idade, a presença de outras doenças e o nível de atividade física, mas a sarcopenia pode ser prevenida e tratada com acompanhamento adequado.
Meu peso está normal ou até alto, ainda assim posso ter sarcopenia?
Sim. Como você viu, é possível ter obesidade sarcopênica, ou seja, excesso de gordura combinado com baixa massa muscular, mesmo com o peso e o IMC dentro da faixa considerada normal. Por isso vale pedir uma avaliação específica de força e massa muscular, e não confiar apenas na balança.
Posso fazer musculação mesmo fazendo diálise?
Sim, na maioria dos casos, desde que com liberação médica e um programa adaptado às suas condições, evitando esforço excessivo no braço da fístula, quando houver.
Suplementos proteicos são liberados para todo paciente?
Não devem ser usados por conta própria. A indicação e o tipo de suplemento precisam ser avaliados por um nutricionista, considerando o teor de fósforo e potássio de cada produto.
E whey protein, creatina e outros suplementos de academia?
A mesma regra vale, com atenção redobrada: muitos produtos vendidos livremente contêm aditivos com fósforo, potássio ou sódio em quantidades que não aparecem com destaque no rótulo, e a segurança de vários deles não foi testada em pacientes em diálise. Leve o pote ou a foto do rótulo para a equipe antes de começar.
Emagreci depois que comecei a diálise. Isso é sarcopenia?
Nem sempre. Parte da perda de peso no início do tratamento é retirada de líquido acumulado e não de músculo por isso o peso seco é reavaliado periodicamente. A diferença entre perder água e perder músculo só fica clara com avaliação de força e massa muscular.
A sarcopenia tem cura?
O termo mais adequado é reversão ou controle: com intervenção nutricional e exercício físico consistentes, é possível recuperar parte da massa e da força muscular perdidas, especialmente quando o problema é identificado precocemente.
Massa muscular também é parte do tratamento renal
Cuidar da musculatura não é um extra opcional no tratamento da doença renal crônica: é parte dele. Prevenir a sarcopenia significa mais força para as suas atividades do dia a dia, menor risco de quedas e internações, e mais qualidade de vida ao longo dos anos de diálise.
Converse com sua equipe de nefrologia sobre avaliação nutricional e possibilidades de exercício físico adaptado à sua rotina de tratamento. Quanto antes você colocar esse assunto na conversa, maiores as chances de preservar sua força e sua independência no longo prazo.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento indicados por um profissional de saúde. Não inicie dietas, suplementos ou programas de exercício sem falar com a equipe que acompanha você.

